O vendedor de Enciclopédia Barsa

Quando era coordenador de educação Básica do governo da Bahia fui procurado durante uma conferência de educação por um senhor impecavelmente elegante.

Lá estava ele com seu terno cinza e uma gravata bem cuidada, seus sapatos engraxados tinham um brilho tanto quanto elegante-careta, seus cabelos grisalhos e um sorriso sereno lhe dava um ar grave de autoridade.

Muitas pessoas logo vieram me perguntar quem era o sujeito o qual há horas eu conversava animadamente: “é Dr. de universidade?” “ Será deputado comunista?” “ É da secretaria?” “gente do governo?” “ é rico?”. Diante tantas perguntas eu simplesmente sorria e desconversava.

Bem, o mistério acabou quando ele pegou o microfone e se apresentou. Era um vendedor de livros, mas exatamente da Barsa.

No semblante de algumas pessoas havia vexatórios traços de decepção, se antes a elegância do camarada causava excitação, agora depois de revelado o mistério, parecia aos olhos da estupidez um mendigo fantasiado de rei.

Decepcionado mesmo ficou eu, em um encontro de educação acontecer uma coisa dessas.

Lembrei dos versos de uma canção da banda “Os Sem destino” de Brasília” Você já se perguntou meu amigo; quanto é que vale/Jesus Cristo dependurado em pescoço de mendigo?”

Para algumas daquelas pessoas ser vendedor de livros não era algo muito diferente de ser mendigo, vender livros em encontro de professores e valia o mesmo quanto um Jesus nas mãos de um mendigo, como sabemos um mendigo aos olhos de muitos não faz sombra, simplesmente não existe e um ex-qualquer coisa.

A condição social ainda fala mais alto, somos nossas representações. Nada mais cretino e desumano que isso.

Há uma espécie de bandido, o estelionatário, o qual sabe usar muito bem esse jeito humano de julgar pelo que se tem e se representa, por isso mesmo sabe ele aplicar os golpes mais estúpidos e impagáveis. O estelionatário se permite ser dado ao banquete dos cretinos e depois faz a festa. Tenho certeza o quanto pessoas roubadas por estelionatários sentem mais vergonha por querer ter levado vantagem em cima de alguém, do que por ter sido roubadas.

Bom eu não comprei a Barsa, nem sei se o vendedor conseguiu vender alguma, mas nunca mais conseguir esquecer aquela tarde de roupas, livros, ar condicionado e preconceitos pedagógicos.

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